Archive

Uncategorized

renedaumal_1

O Grand Jeu junta homens cuja única pesquisa é uma evidência absoluta, imediata, implacável que matou neles, para sempre, qualquer outra preocupação.
O Grand Jeu junta homens que apenas têm uma Palavra a dizer, sempre a mesma, infatigavelmente, em mil linguagens diversas; a mesma Palavra proferida pelos Rishis védicos, pelos Rabis cabalistas, pelos profetas, pelos místicos, pelos grandes heréticos de todos os tempos, e pelos Poetas, os verdadeiros.
O Grand Jeu quer travar uma luta sem tréguas, sem piedade, em todos os planos, contra os que traem esta revelação em proveito do interesse egoísta, humano, individual, social: padres, eruditos, artistas.
O Grand Jeu exige uma Revolução da Realidade no sentido da sua origem, mortal para todas as organizações protectoras das formas degradadas e contraditórias do ser; é portanto o inimigo natural das Pátrias, dos Estados imperialistas, das classes dirigentes, das Religiões, das Sorbonnes, das Academias.
O Grand Jeu apenas reconhece como conhecimento, a identificação actual do sujeito com o objecto; como liberdade, a libertação por reconhecimento da necessidade universal determinando-se

Sem livre-arbítrio
Sem capricho, sem fantasia
Sem coisas bonitas
O Grand Jeu é primitivo, selvagem, antigo, realista

René Daumal
(Texto inédito. Tradução de Lurdes Júdice.)

QSEFQNUV_1

Durante o próximo fim-de-semana — dias 19 e 20 de fevereiro — a Dois Dias apresentará um conjunto de 18 novos cartazes na exposição your body is my body — o teu corpo é o meu corpo (a decorrer no Museu Coleção Berardo) no âmbito do programa Veículo de intimidade — hoje.

Na colecção de cartazes de Ernesto de Sousa, motivou-nos um conjunto significativo de cartazes com frente e verso, excepções à anatomia elementar de um cartaz e ao seu esquema cultural e retórico. Se a frente do cartaz é quase sempre pública, o verso é quase sempre privado; se a frente é enfática, sintética, eficaz, o verso é um lugar inusitado, ignorado, poético, onírico, disfuncional; se a frente é um «rectângulo de apelo», o seu verso contém uma mensagem silenciosa.
Partimos em busca do que está em silêncio.
No verso do cartaz da representação brasileira da Bienal de Veneza de 1982, do artista Tunga, encontrámos a expressão “DIREITO AO REVERSO”, que serviu de ignição a três conversas. Os cartazes agora apresentados são o registo e a tradução das conversas que tivemos com três cúmplices: António Brito Guterres, Joana Bagulho e Patrícia Portela.
Este é o nosso elogio breve ao verso.

(Obrigada Inês Castaño, Luísa Metello Seixas e Isabel Alves pelo convite e belíssimo programa. Os nossos agradecimentos estendem-se aos nossos três cúmplices.)

lombadas“E Arroios passa assim a ser um bairro universal, tão universal quanto a Dublin de Joyce, a Praga de Kafka e a Nova Iorque de Bartleby. E evocamos esta célebre personagem de Melville porque ela, na sua opção pelo não-fazer, pelo modo como desarticula toda a economia que obriga, por meio do trabalho, a fazer obra, poderia ser um antepassado deste Eu sem nome e sem história que só existe sob a forma de diário — nasce e extingue-se com ele. A sua opção pelo não-fazer, isto é, pelo fazer nada (que não é exactamente a mesma coisa que nada fazer) está bem patente na maneira como frequenta a biblioteca: olhando para as lombadas dos livros, não por preguiça de ler, mas porque é activamente um não-leitor.”

“Isto não é um diário”, crítica literária ao livro Arroios de José Maria Mendes, por António Guerreiro (in Ípsilon 22.01.16)

Ler crítica