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Os best lookers e as «bestas céleres»

Do lado da provocação, da ironia, de um tipo de edição que por si mesmo seja uma prática literária, uma pequena editora portuguesa tem feito mais pelos livros do que os conglomerados que vieram uniformizar a paisagem.

Ao cunhar o termo «besta célere», Alexandre O’Neill avisava que o bicho já trazia fama, portanto, o mérito era todo dele (do bicho) e não seu (do poeta) em apanhá-lo na piada em que o fenómeno se metia ao correr afoito da língua inglesa para se deixar emboscar na portuguesa. Aí estava o produto eficazmente projetado em termos de marketing editorial e livreiro, para se vender muito e depressa, sendo concebido de raiz com os seus olhos (do bicho) «postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exatamente esperava. Nem mais, nem menos». Num país que sempre se fez muito moderno à custa de imitar, desde o processo da concentração editorial o meio parece ter sido arquitetado à volta do conceito de best-seller.

Entretanto, por cá fala-se menos nos best-lookers, livros que são concebidos, tanto a nível gráfico como nos materiais usados, para servirem uma expressão educada pelo seu conteúdo. A esse nível, no nosso país, surgiu já na segunda década do XXI a Dois Dias Edições. É um trabalho que, dada a envolvência, adquire uma importância seminal, com um catálogo que, se é breve (apenas oito títulos), esticou já o seu horizonte de tal modo que a noção de best-lookers se encontra perfeitamente ilustrada no esforço dos dois leitores que estão por trás da editora: Rui Almeida Paiva e Sofia Gonçalves.

Os livros desta pequena editora fogem de um molde, os genes que partilham não os fez todos altos e ruivos, mas é notória a preferência dos editores por «discursos difíceis de catalogar». São livros que adquirem a sua especialização quando nos chegam à mão: o seu manuseio revela que o objeto foi pensado num generoso e inventivo diálogo com o texto. Rui e Sofia referem o exemplo do eminente editor e escritor italiano Roberto Calasso, que defende a «edição enquanto género literário». Os dois editores dizem ao SOL que, hoje, «look» e «sell» não são antagónicos, mas que a expressão «look to sell» resulta como uma fórmula para muita da produção editorial coma qual não se identificam. «As capas de livros são porta-estandartes nos quais reconhecemos posições ou ‘ideologias’ editoriais».

A Dois Dias afirma-se como editora «dissidente», um lugar colocado à margem dos valores que animam o consumo de massas, e que implica uma «distância crítica ou ceticismo» ou até um sentido da ironia, observando a forma como a vida dos negócios se quis impor cegamente a um dos instrumentos preferidos do ócio: o livro. O aviso de O’Neill foi claro. A lógica do best-seller pode levar a que aquilo a que chamamos literatura venha um dia a transformar-se no contrário de si mesma: o fabrico e o consumo de um produto que por acaso se chama livro.

— Diogo Vaz Pinto —

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