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Mattia Denisse: Duplo vê – O Tautólogo

Mattia Denisse é uma figura discreta no meio artístico português mas esta publicação, e as exposições que a antecederam, demonstram a originalidade e o fulgor do trabalho deste artista.

Publicado pela Dois Dias Edições, jovem editora muito empenhada na direção discursiva dos livros que decide publicar, este Duplo Vê – o Tautólogo é o resultado de uma compilação de desenhos (o desenho é o meio de expressão eleito por Denisse), segundo a editora “Duplo vê é essencialmente um livro de desenhos e, ao mesmo tempo, o nome em extensão da letra W (inspirado no título de George Perec, W ou les souvenirs d’enfance) e também o “duplo ver” de um Deus vesgo. Duplo vê, O Tautólogo (nome dado ao demiurgo criador da tautologia) poderia ter um outro subtítulo: “Ensaio sobre o estrabismo de Deus”.”

Livro na mão e, coisa que nem sempre acontece, detemo-nos no objeto, no desenho e no material sensual da sua capa, que acusam um toque fascinante para os fetichistas. Este livro também nos fala disso, dos fetichismos e das paixões. Abrimos o livro e detemo-nos num texto impresso na badana, espécie de introdução aos mistérios a que o conteúdo alude, das deformações oculares de Deus. Esta nota introdutória é um pequeno manifesto acerca do sacrossanto atavismo da nossa visualidade. Avançamos, um desenho a lápis azul como separador e três páginas de ‘índice’, outras três páginas semelhantes aparecem no final do livro. Este índice é uma tabela que, ao contrário de um normal índice, não nos remete para números de página ou fichas técnicas ou obras em lugares específicos do livro. É um elenco de títulos que tem como título “O título é = à soma de todos os títulos”; enigmático o título, como também é obscuro o conteúdo do livro a que cada um destes títulos, frases, pensamentos, grafismos, equivalências ou anotações se referem. É como uma declaração de intenções para o que se passa no livro: os desenhos, as missivas caligráficas, jogos de palavras, antístrofes e perífrases, anagramas e diagramas, gráficos conceptuais, jogos de fumo e espelhos, objetos perigosos, mitos antigos e máquinas modernas, instruções, indicações e rastos que sugerem uma visualidade poética, experimental e filosófica.

Permeando as torrentes de desenhos algumas “notas do editor”. São textos que ajudam a tornar ainda mais complexa qualquer tentativa de leitura unívoca do conteúdo das imagens.

Todos os assuntos parecem viver sob a tutela de uma forma muito particular de humor e análise, introspeção e julgamento que não dispensam a bitola patafísica, um agudo sarcasmo dadaísta, e a mundividência dos universos da literatura absurdista, do non-sense e da literatura experimental. Estes textos do editor parecem apontar precisamente para esse caminho da ratificação dos universos paralelos em que habitam os desenhos de Mattia. Explicar é reduzir, mitificar é ampliar.

Muitos dos desenhos são esquemáticos e têm como material riscadores de duas cores, vermelho e azul, incutindo um esquematismo primordial aos desenhos que parecem querer dizer que nos devemos preocupar com o conteúdo e não com a forma. Noutros desenhos, impressos noutro tipo de papel, cromatismos vários dão corpo a visões de situações que entregam estas narrativas à mais absurda visão do mundo, desenhos arquetipais. Absurdo não será o melhor termo para tentar pensar acerca dos mundos que Denisse imagina; são quimeras, fantasias que permitem ao nosso olho preguiçoso relacionar aquilo que a nossa aparente acuidade visual e mental não tem por hábito reunir. O que este livro tem de exemplar é a articulação impassiva entre ideias, nomenclaturas e as sombras que estas fazem vislumbrar. Numa ‘nota do editor’ particularmente sucinta, especula-se assim:

«Hora1 de ponta. Na esquina de uma grande cidade2, a sombra acaba de perder-se no espaço, e sobretudo no tempo do seu homem. O homem, ao fim de escassos segundos, aprende a viver sozinho3. A sombra4 tenta compreender, desesperada, como funciona a vida sem o seu homem. Nos cinco meses que se seguiram, em diferentes pontos do globo, os fios que ligavam dezoito palavras às suas coisas5 foram encontrados cortados. Algumas testemunhas, nos seus depoimentos, dizem ter avistado perto das palavras uma sombra indecifrável com uma tesoura na mão6. Receando as consequências mortíferas destes acontecimentos, os linguistas7, com uma tesoura na mão, cortaram8 o fio que ligava a palavra «tesoura» à tesoura.»

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As notas remetem para desenhos que não conseguimos reproduzir aqui. Não são só os olhos do estrábico que cruzam a trajetória da visão, as palavras, cortadas do fio que as liga aos objetos, cruzam-se com planos indefiníveis e devolvem-nos a hipótese de refletir sob a natureza das coisas.

“Guarda-livros” por João Seguro in Contemporânea

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