Uma pequena editora ilustra com o seu catálogo formas de devolver ao livro a sua nobreza enquanto objeto que acima de tudo é cúmplice com o texto. Livros preciosos mas que não redundam na categoria das edições de luxo.

Têm oito livros, como pedras saídas do bolso, uma pontaria danada, para tacar olhos que saibam ser um princípio para uma longa conversa. Eles próprios dois leitores antes de tudo, Sofia Gonçalves e Rui Almeida Paiva, fazem livros com um empenho maior do que depois os vendem, livros que, contornando o luxo, vão por caminhos ínvios em busca de uma graça mais justa. Antes de lançarem um pé e o outro, começa de roda de si mesmos, cães atrás da cauda, mas num entusiasmo sábio, sério, cães que logo se lançarão na caça de grandes solidões. As dos leitores.

Exemplar do ponto de vista gráfico, o catálogo da Dois Dias Edições conta com um uma reunião de “Fragmentos Narrativos” do poeta francês, filósofo, compositor de silêncios, Paul Valéry; um romance, “Cardeal Pölätüo” de Stefan Themerson, polaco, também poeta, e filósofo, cineasta experimental, editor em parceria com a mulher e a coleção começou com o pé esquerdo mais direito, indo buscar um texto com 40 anos de Vitor Silva Tavares, o editor de poetas que morreu no ano passado, de surpresa, embalado como vinha na gestão, durante os mesmos 40 anos, de um prejuízo fabuloso dando forma de livro aos mais diversos jeitos de ladrar com intenção ao sol e às luas. A &etc acabou, mas o encanto pelos livros, se não desce com os genes de uma geração à seguinte, defende-se como pode.
Esta pequena editora “permanentemente provisória” tira 500 exemplares de cada título. E saberá quem toma o pulso ao nosso leitorado que não meio milhar é já um número que revela optimismo. Num momento em que o meio editorial vive em pleno a ressaca do fenómeno da concentração, sendo certo que a crise é mais portuguesa que muitos de nós (leia-se: veio mesmo para ficar, e provavelmente há-de sobreviver-nos a todos), os que não emigram, se querem fazer vida e não ser reduzidos à baixa condição que fica entre o trabalho e o lazer, reforçam as barricadas, continuam a constituir reservas para o longo inverno cultural que está sobre nós. Porque para se lerem livros, alguns pelo menos são precisas horas de profundo ócio. E quando se diz horas quer-se dizer meses, vidas inteiras. E, no fundo, a diferença toda está entre os livros que existem em função de grandes públicos, como gripes sazonais. Os ‘best-sellers’ – ou “bestas céleres” como preferia Alexandre O’Neill –, livros que aparecem, contagiam tudo o que em vez de perseguir a própria cauda, segue a dos outros, oferecem algumas horas de lazer e depois desaparecem como apareceram. Na margem oposta estão aqueles que só existem porque há leitores que os amam terrivelmente, que largam dinheiro para os fazer chegar a outros, para continuar essa cadeia de favores que tem sido erigida em honra ao ócio através dos séculos.

Eis uma breve entrevista que fizemos aos dois leitores responsáveis por esta editora. Ao lado, Sofia e Rui guiam-nos pelo processo de edição de dois títulos emblemáticos do seu catálogo.
Em que medida foram inspirados no trabalho desenvolvido por Stefan e Franciszka Themerson com a editora Gaberbocchus Press – “cujo objetivo era produzir ‘best lookers’ em vez de ‘best-sellers’, ou seja, o livro como expressão do seu conteúdo”? 

As afinidades com a Gaberbocchus já existiam previamente mas estreitaram-se com a edição de “Cardeal Pölätüo”. É uma editora exemplar que, por via da obra e vida de Stefan e Franciszka Themerson, se espraia em múltiplas dimensões de acção. Contudo, alinhamos com a expressão “best lookers” em vez de “best-sellers” na dose certa, o que implica sempre uma necessária distância crítica ou cepticismo. Alinhamos com a ironia, quando reconhecemos um contexto histórico propício a este tipo de provocações. Alinhamos ainda com a Gaberbocchus quando se pensa a edição como espaço preferencial de discursos difíceis de catalogar; ou onde os processos editoriais podem em si gerar novos discursos — aquilo que Roberto Calasso defende em “A edição enquanto género literário”. Mas hoje, “look” e “sell” não são antagónicos. Se quisermos, a expressão “look to sell” pode ser a fórmula para muita da produção editorial com a qual não nos identificamos. E aqui, o design é claramente cúmplice; as capas de livros são porta-estandartes nos quais reconhecemos posições ou “ideologias” editoriais. Assinamos por baixo e sem reservas a ideia de que a concepção de cada livro, a sua materialização, deve ser uma expressão ou extensão do seu conteúdo.

Podem aprofundar o sentido em que se afirmam como uma editora “dissidente” no atual quadro editorial português? Quais são as principais criticas que fazem às editoras que colaboram com a industrialização da cultura? 

A afirmação “dissidência” surge numa lógica de filiação, ou melhor, de afinidades imediatas, quase irracionais, com determinados projectos editoriais. Isto implica imediatamente uma exclusão de partes: não nos identificamos com discussões em torno do papel da edição mediada por valores quantitativos, sejam eles económicos, financeiros ou mediáticos. Interessa-nos a produção editorial enquanto produção cultural. Isto parece uma evidência, mas nem sempre reconhecemos as consequências desta afirmação. Por exemplo: hoje, é frequente ouvirmos falar de edição, editores e casas editoriais em espaços ou eventos habitualmente reservados a autores e livros — publicações periódicas da especialidade, críticas, conferências, televisão, etc. Mas raramente vemos os editores da chamada “industrialização da cultura” a falarem de cultura. E este é um dos paradoxos essenciais que nos remete para um lugar de dissidência; e para um desinteresse em torno deste tipo de debates.

No site da editora dizem: “Os textos, lidos muitas vezes em voz alta, devolvem à linha de montagem a vontade de construir, para já, mais um livro.” Em que é que a leitura do livro informa a concepção depois do resultado final?

A questão da leitura é essencial bem como a sua performatividade. A publicação Efeito Kuleshov (co-editado com a Amor-Livr’o), por exemplo, só se concretizou em pleno, durante o seu lançamento, quando jogámos com o formato da leitura em lançamentos de livros. Para fazer jus ao efeito cinematográfico, o livro é composto por dois textos para uma mesma imagem: um texto real (ou seja, o texto de onde provém a imagem) e outro fictício, escrito ora pela Joana Bértholo, ora pelo Rui de Almeida Paiva. No lançamento, a Raquel Castro lia algumas das versões fictícias quando subitamente é interrompida por alguém na audiência, o Nuno Lucas, que afirmava peremptoriamente que o texto que tinha acabado de ser lido era uma farsa — ele sabia a verdadeira origem daquela imagem e esta correspondia a tudo menos ao que acabava de ser lido. Gerou-se, no imediato, uma certa consternação na audiência, apanhada de surpresa perante a iminência do falso. E nós, editores, igualmente apanhados em falso. De seguida, o Nuno começa a ler a outra história, a real. Passa de alguém que foi espreitar um lançamento, a leitor. A partir desse momento, desmonta-se o esquema do livro e para cada imagem lêem-se os seus dois textos.

Também é interessante perceber em que medida a leitura em voz alta, ou a leitura que provém dos leitores, pode ser um mecanismo essencial na re-edição de determinadas obras. É um exercício que gostaríamos de desenvolver.

 


 

Cardeal Pölätüo:

Este é um bom exemplo que demonstra aquilo que gostamos de defender: não apenas destacar a capa, mas a forma do livro, a sua volumetria, enquanto identidade visual do mesmo. A capa da 1ª edição deste livro (edição a partir da qual foi desenvolvida a tradução) foi desenhada pelo próprio Stefan Themerson:

(origem da imagem: http://www.gvart.co.uk/stefan-themerson.html)

Nela, o Cardeal passeava sobre um mosaico de Piet Mondrian, desenhado pelo artista para a sua capela pessoal — esta escolha não só era a demonstração do poder do Cardeal, mas também da sua sofisticação intelectual. Esta alusão à pintura no romance (um momento breve) e a sua transposição para a capa da 1ª edição era para nós particularmente misteriosa. Em edições posteriores, o quadro desapareceu.

Em certa medida, quisemos construir uma homenagem subtil a esta capa desenhada por Stefan Themerson. Esta intenção passa a certeza quando, numa viagem a Cabo Verde, passámos por uma casa transformada num quadro de Mondrian. Esta casa, por sua vez, leva-nos a todo um conjunto de apropriações excêntricas da obra do Mondrian em objectos banais: desde copos, canecas, peças de roupa, almofadas, cadeiras, jogos do Pong (v. gif em baixo), mais casas, etc…:

 

Quisemos fazer parte desta família e transformámos toda a tridimensionalidade do livro numa alusão a Mondrian. Esta intenção não se desvenda na capa. Só quando vemos a contracapa, desdobramos as badanas e olhamos para as laterais pintadas de negro percebemos verdadeiramente a alusão.

Mas o porquê desta apropriação continua a não ser evidente. São muitos os que nos perguntam, porquê um Mondrian. O raccord só se constrói com a leitura da passagem sobre o mosaico de Mondrian no livro Cardeal Pölätüo.

 

Outro exemplo é Para Já Para Já de Vitor Silva Tavares.

Desde o primeiro momento, o texto revelou-se-nos urgente. Não só a escrita do Vitor revela uma velocidade e sagacidade incríveis, como se constitui enquanto retrato mordaz e intemporal da sociedade portuguesa. Escrito em 72, queria chegar rápido ao séc. XXI — pertencia ao séc. XXI. Todas estas ideias rapidamente se materializaram numa imagem: um texto sem tempo a perder, mordaz, veloz, urgente, sem papas na língua, que não pede licença para entrar, a marimbar-se para as etiquetas (incluindo as etiquetas editoriais) e que por isso começa logo na capa. Não existem folhas de rosto ou quaisquer outros interlúdios amenos de entrada no texto. A capa é a página 1.

Depois, ainda baralhámos mais tudo isto e convidámos a Inês Botelho para conceber um desenho que fosse como que uma segunda capa para o livro, construído a partir da leitura que a Inês fez do texto do Vitor. Gostamos desta ideia das contracapas como segundas capas. Sempre imaginámos que o livro podia ser identificado por ambas as capas: uma que nos diz logo ao que vai, a outra que oculta a sua identidade.


jornal i (31 de Março de 2016) — versão impressa:

 

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