Temos assistido à tentativa de focar as atenções na utilização das redes sociais como arma central e impulsionadora das manifestações de protesto que têm emergido espontaneamente um pouco por todo o mundo nos últimos anos. A questão pode ser colocada de um ponto de vista diferente: serão as redes sociais, enquanto ferramenta de propagação de informação, capazes de politizar a sociedade? O Facebook, tal como nos alerta Miltou Hatoun, é apenas um telefone contemporâneo, gigante, onde podem entrar na mesma conversa milhares, milhões. E acrescenta, arrematando, que a tecnologia não cria consciência política. Quem cria essa consciência é uma entidade de seu nome ESCOLA. E adiciona a esta um adjetivo basilar: mas tem de ser uma ESCOLA BOA.

Nas redes sociais, entre outras coisas, vive-se um tempo para as ideias. Ali uma ideia acorda tão poderosa, tão demolidora, quanto fugaz, perante um indivíduo fixo, estático diante do seu ecrã. Numa escola, passageiro é o indivíduo, podendo, nos anos que aí vai transitando, avançar com maior ou menor profundidade sobre as ideias e os conceitos que sobreviveram ao esquecimento – seleção detalhada de matérias tidas como indispensáveis para a vida de um jovem cidadão.

Essa Escola Boa combinada com os instrumentos tecnológicos à nossa mercê, esta consciência de sintonia ainda por mobilizar, é a oportunidade que a contemporaneidade pode (ainda) agarrar, (ou não), para produzir essa revolução que não tropeça na desmobilização, e que, por sua vez, ganhe propriedades de fixação.

É evidente que a escassez de investimento está, na época que testemunhamos, na ESCOLA BOA. Quando recuperarmos o protagonismo que a Escola Boa merece; e os assuntos da reflexão regressarem enquanto necessidade quotidiano (tal como estão já inscritas nas nossas vidas as necessidades tecnológicas), então estaremos a postos para cravar as primeiras estacas dessa revolução que hoje apenas ameaça. Os protestos díspares e dispersos que nascem e adormecem com a mesma celeridade encontram-se, pois, assentes em terrenos lodosos. A verdadeira revolução, mobilizadora e consequente, deve misturar, organizar e inventar novos materiais resistentes no interior das salas de aula. Se as primaveras precisam de irreverência, é nas turmas que brotarão os mais bonitos jardins.

Esta questão foi para aqui repescada não por acaso. A questão do livro e da sua sobrevivência tem sido discutida (quase dolorosamente) em estreita relação com a tecnologia. Sem pretendermos desbastar mais o assunto, resta-nos declarar que o livro não foi contagiado por uma doença maligna dos novos tempos. Como tal, o problema da “morte” será esquecido para nos entregarmos ao diagnóstico da “vida” do livro.

Para tal imaginemos um texto escrito numa escrivaninha. Quem o redigiu foi um ser humano. Para simplificar as nomenclaturas chamemos-lhe de autor. Imaginemos que existe um manifesto interesse de um grupo de seres humanos em descobrir o que foi escrito por este autor. Podemos, consensualmente, nomear este conjunto de pessoas de leitores. Pois bem, entre o primeiro e o segundo (entre o autor e o leitor), existe um terceiro que se intromete. A este intruso chamemos-lhe editor. É ele que decide se existe este primeiro sujeito – um autor – e se existe este segundo sujeito – os leitores. Quando o editor compreende que esta aliança entre autor e leitor é possível de se concretizar, cumpre o gesto simples (que implica uma quantidade enorme de operações) de mover o texto da escrivaninha do autor e deixá-lo diante dos olhos do leitor.

Um livro é, deste modo, um texto que passa de um autor para um leitor. Não é mais do que isto.

Um livro não é uma resma de folhas preenchidas por letras, não é um computador com ecrã finíssimo e maleável, não é um mural repleto de poemas, etc.

Um livro é esse texto que tem um autor e um leitor.

Partindo deste desígnio, parece-nos sensato virar definitivamente as costas à questão da morte do livro em papel. O suporte do livro foi e será sempre o mesmo – o seu texto.

O livro precisa apenas, portanto, de bons escritores e bons leitores. Garantindo estes dois fundadores, garantiremos existência de um “bom livro”[1].

Aqui chegados, é de nosso interesse recuperarmos a dinâmica de argumentação de Milton Hatoum, para lançarmos a questão que parece interessar, neste momento, ao “bom livro”: como e onde se conquista uma consciência literária?

Atrevemo-nos a uma primeira hipótese, ainda que imberbe – a consciência literária brotará sempre da vida. Surgirá sempre desde que resistam as escolas, os cafés, os jardins ou bibliotecas arquitetadas com a função central de o conhecimento circular entre Homens. Mas para isso é necessário, em todos esses lugares de vida, lembrar os bons escritores e os bons leitores, quando começarmos a falar do livro.


[1] É, contudo, importante ressalvar que não nos esquecemos que para fazer viver esta existência são também necessários outros parentescos do livro – livreiros, distribuidores, editores, etc.

 

— texto apresentado em BATTLE OF IDEAS, “The book is dead: long live the e-book?“. ZDB, 28 de Setembro de 2013.

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